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Até os Ossos estreia hoje nos cinemas. Veja a crítica.

Atualizado: 3 de jan. de 2023

Vencedor do Leão de Prata de Melhor Direção no Festival Internacional de Cinema de Veneza 2022, Até Os Ossos é um longa peculiar. Estreando hoje, 1º de dezembro, nos cinemas, o road movie reapresenta, por um lado, a beleza da Nova Hollywood, mas também o horror do canibalismo, mesmo que simbólico, por outro.




Do mesmo diretor de Me Chame Pelo Seu Nome (Luca Guadagnino), a obra expõe o dilema de Maren (Taylor Russell), uma jovem à margem da sociedade que busca entender o seu passado e reajustar a sua vida, e Lee (Timothée Chalamet), um andarilho que tem muito em comum com ela. Unidos pelas estradas estadunidenses, os dois criam uma intensa relação de amor com gosto de sangue.


Com excelente maquiagem artística, ótima fotografia e canção original impecável, a obra causa indigestão do início ao fim, cumprindo o (difícil) papel do seu gênero. Acertando no ritmo do seu desenvolvimento, porém, peca na conclusão. O casal de jovens é canibal e, possuindo essa condição nata, busca entender como sobreviver no mundo com discussões rasas sobre ética ou mesmo sobre esse tema (central) apresentado. No decorrer da narrativa, encontram outros de "sua espécie", mas todos soam assustadores de alguma forma, o que faz com que o par romântico acabe se adaptando às suas próprias regras. Mas quais, afinal, são as regras? Por que eles nasceram assim? Quais os segredos por trás do passado dos dois? Nem tudo é explicado, e muito do que é dito se faz dito superficialmente.


Mesmo longe de ser um filme clássico, Mark Rylance, diversas vezes, rouba a cena ao interpretar Sully, o personagem perturbado que melhor poderia ser enquadrado como antagonista da história, cuja interpretação se faz impecavelmente doentia e nojenta. Da mesma forma, também se fazem repugnantes algumas cenas em que parece que o diretor queria colocar o pé no lado sexual, mas acabou por deixar só alguns dedinhos, como, por exemplo, quando Sully surge apenas de cueca e camiseta (ou seria regata?) devorando literalmente uma senhora na frente de Maren. Que homem sexagenário apareceria assim na frente de uma jovem naquele contexto cinematograficamente apresentado sem segundas intenções? Todo o stalk posterior para mim faz com que não haja dúvidas, mas nem todos concordaram com a minha visão.


Além disso, o mesmo teor sexual não aprofundado pode ser percebido na primeira cena de ataque canibal, quando Maren chupa o dedo de uma menina para depois destroçá-lo. Provavelmente é essa a intenção, mas... Qual o objetivo da obra, afinal? Quais reais discussões ela tentou trazer? Ironicamente, o casal da história romântica é o único que não aparece fazendo sexo, e todas as cenas sugerindo ou chegando mais perto de explicitá-lo, além de não envolvê-los, soam degradantes. Seria a forma de deixar no imaginário platônico o amor? Seria esse amor algo que, quando concretizado, estraga e apodrece como carne humana?


Muitas são as teorias, mas, até o momento, pouquíssimas as certezas. Na poltrona do cinema, eu fiz alusão direta ao uso de drogas e o quanto elas podem devastar todas as estruturas existentes ao ponto de não sobrar do esqueleto da vida nem mesmo os ossos. Outros críticos mergulharam em teorias políticas. Outros provavelmente filosofaram sobre o perturbado lado erótico da trama, mas as únicas teorias realmente aceitas são as que saem da boca do próprio diretor: "Até Os Ossos é um filme sobre a impossibilidade do amor e a busca por um lar." É também "um reflexo cinematográfico de todas as possibilidades que nos constroem como pessoas."


Com roteiro de David Kajganich, baseado no romance de Camille DeAngelis, Até Os Ossos, como espectadora, me conduziu à mais profunda náusea (ao ponto de eu passar mal ao sair do cinema) e confusão mental e simbólica. Tendo em vista isso e a estrutura técnica acima apresentada, jamais o descreveria como um filme ruim, mesmo sem ter gostado dele (pois cumpre excelentemente bem o seu papel como horror e acerta, ainda em menor escala, como romance). Também não o descreveria como ótimo, dado que a personagem principal passa todo o tempo de sua trajetória tentando entender a sua história e essência, mas continua, ao fim, sem essa definição. Eu o descreveria mesmo como confuso, indigesto, bem produzido e raso. E, mesmo sabendo que o papel de muitas obras é despertar perguntas, a falta excessiva de respostas também cansa, pois o sentimento de sair incomodada mental e fisicamente, além de confusa, não me faz achar que a experiência tenha valido tanto assim a pena.


Se entrar para o Oscar, será uma incrível novidade, pois a temática canibalista é um grande empecilho para isso. Se você gostar do filme, não será tanta novidade assim, pois me parece o tipo de obra que ou você ama ou você odeia. A única certeza que tenho é de que você não esquecerá essa produção depois de ver o amor e a nojeira emaranhados tão de pertinho.


Assisti a esse filme com o Espaço Z. Como já deve ter percebido, me embrulhou até os ossos.

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